Padre Luciano

quinta-feira, setembro 12, 2013

Um Padre. Completamente diferente daqueles que existem.
Lembro-me na viagem aos Açores, quando estava a vaguear numa igreja e passa um senhor ao pé de mim e disse-me com um sorriso "Olá jovem". Fiquei a olhar para ele, mostrei-lhe um pequeno sorriso, e segui em frente. Mas notei que não era um senhor qualquer por causa do olhar, aquele olhar que conseguiu penetrar na minha alma naquele instante. Virei-me para trás, o senhor reparou e olhou para mim, para disfarçar segui o meu caminho. Esse mesmo senhor, mais tarde veio ter comigo e mais uns amigos meus, éramos quatro jovens. Mostrou-nos o órgão, tocou o Ave Maria de Schubert e naquele momento a igreja pareceu que tinha ganho vida. Os lindos anjos sorriam, os vitrais tinham mais cor porque o sol brilhava mais, tudo preencheu a alma. O senhor convidou-me para tocar no órgão, sempre comedida, sentei-me devagar no banco, olhei para os meus amigos e toquei nas teclas do órgão e em poucos segundos parecia que estava num sonho. O senhor estava com um pólo cor-de-rosa e calças pretas. É careca e baixo.

Descobri mais tarde que era maestro de um coro, quando fui cantar juntamente com o meu grupo na igreja. No dia seguinte fomos todos juntos passear, às vezes o senhor metia-se comigo, porque naquela altura, era uma rapariga muito fechada e não falava com ninguém, apenas me limitava a olhar para as pessoas. Perguntou-me que idade tinha, se tinha feito a primeira comunhão..."Oh Senhor Padre! Vamos cantar todos juntos a Senhora d'Aires!" Disse uma senhora açoriana que estava a almoçar connosco. Não que tenha medo de Padres, mas são pessoas que se dedicam muito a uma religião, e tem de haver respeito quando se está a falar com uma pessoa desse gênero. Fiquei pasmada a olhar para o senhor, é das pessoas mais doidas que já conheci em toda a minha vida, era completamente radical! "O Senhor é Padre?" disse eu. "Sou sim", respondeu o Padre Luciano. O meu maestro que estava ao meu lado, riu-se, e os meus companheiros de viagem ficaram de boca aberta. Naquele momento começamos a chamar-lhe de Padre. Fizemos grandes noitadas até às tantas, e o Senhor Padre oferecia-me sempre licor de canela e eu rejeitava sempre a oferta, dizia-me sempre "Eu não digo à tua mãe!" Meu Deus, nunca conheci um padre assim! Divertia-se que nem um louco, contava piadas estranhas! Todos os padres que conheci eram todos sérios e falavam sempre a mesma coisa. Mas aquele padre era diferente, ele ajudou-me a ser aquilo que sou hoje. Na última noite, fizeram todos uma festa. Na despedida o Padre Luciano chamou-me para falar a sós, e nunca mais esqueci as palavras dele.
Olhou-me nos olhos e disse-me "És uma menina fantástica, tens que te libertar, não tenhas medo. Põe-te direita e segue em frente. Tu consegues, és mais forte do que aquilo que imaginas."
Apenas tinha conhecido o Padre há dois dias, e parece que através do meu olhar ele percebeu que algo em mim fazia-me sofrer. E quando disse isso, abraçou-me com força e disse que ia ter saudades minhas.
Verão, 2011

Eu a tocar no órgão

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6 Comentários

  1. Esse padre de que falas deve ser uma pessoa realmente inspiradora! Fomos habituados desde cedo a ver a figura do padre com um certo rigor e seriedade e na verdade há alguns deles que quebram com essa ideia, tornando-se pessoas divertidas e descontraídas! Isso não faz deles menos "religiosos" como muitos podem imaginar, nem lhes tira credibilidade, na minha opinião até penso que são capazes de estar ainda mais em contacto com aquilo que acreditam, porque viver feliz e ajudar os outros é sempre a melhor das formas de encarar a fé, seja ela qual for! :)

    muito obrigado pelo teu comentário, vou seguir*

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  2. Gostei e segui :) tambem tenho um blogue de fotografia chama-se "Pour le Monde" e outro sobre mim.

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  3. Gostei da fotografias :)

    http://catsandties.blogspot.com/

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